Ricciardi Online

December 20, 2003

Filhos, netos e máquinas digitais. Podemos estar diante de uma incompatibilidade.

Filed under: Uncategorized — nelson @ 2:15 pm

Oi mamãe, Canon EOS 10D, Canon EF 50mm f/1.8 II, 1/125s f/2.8 iso400

Com frequência recebo emails como esse:

“Caro Nelson,
Meu neto nasceu. Estou querendo comprar uma máquina digital para documentar seus primeiros dias. Gostaria que fosse uma máquina pequena e leve pois já não tenho mais energia para carregar equipamento pesado o dia inteiro.
O que você me recomendaria?
Um abraço,
Sérgio”

Em geral respondo sempre a mesma coisa. Não sou um expert nas diversas marcas de digital. Usei poucas marcas e modelos e, portanto, não posso me julgar apto a dizer o que as pessoas devem comprar.

Meu email sempre vai com conselhos genéricos como “pense no sistema completo e não apenas numa unidade, numa máquina” ou “se você já tem uma SLR de filme, com um flash externo, talvez seja boa idéia comprar uma digital da mesma marca e usar o mesmo flash” e coisas deste tipo.

Mas me ocorre agora que existe um dado importantíssimo no email do Sérgio, uma informação que pode fazer com que eu responda “não compre uma máquina digital. Elas não são adequadas para o que você pretende fazer.”

O Sérgio quer fotografar o neto. O neto, como toda criança, dentro de poucos meses estará engatinhando. Em um ano estará correndo pela casa, pegando tudo, fazendo suas bagunças e descobertas. Antes de uma certa idade ele não vai obedecer, jamais, ao pedido “olha pra mim, lindinho, olha pro vovô poder tirar uma foto… netinho….. uh uhhhhhhhh”. E o neto não olha, resiste, por mais que falem seu nome com candura ele não olha.

Mas, quando menos se espera, o neto vira o rostinho e olha fixo dentro dos olhos do avô. O rosto, lindo, angelical, perto da janela, precisa ser clicado. Esta imagem precisa ser guardada para sempre.

O avô, ágil, coloca a máquina à frente do rosto, aperta o botão do click e um segundo e meio depois a máquina faz a foto. O netinho, claro, depois desta eternidade, já olhava para o chão. A foto do desapontadíssimo avô registrou tão somente a carequinha do neném e um pedaço de sua testa. O olhar e a doçura já tinham ido embora.

O vovô acabara de descobrir o indesejado shutter lag, termo americano que descreve o tempo entre o apertar do botão e a abertura do diafragma.

O shutter lag é uma característica das pequeninas digitais atuais e talvez seja a maior reclamação dos usuários deste tipo de máquina. Embora os fabricantes conheçam o problema e estejam trabalhando para eliminá-lo, a verdade é que os recentes progressos ainda são insuficientes para que uma digital compacta seja o instrumento adequado para fotografar filhos e netos. Pelos menos para o tipo de foto que eu gosto de fazer. O raciocínio vale para qualquer foto em que a velocidade de captura seja crítica, como fotos de esporte, por exemplo.

Recentemente o shutter lag começou a ser decomposto em dois ítens pelas publicações do setor. São eles:

Lag de foco: o tempo que a máquina leva para fazer o foco. Pressione o botão disparador de sua máquina até a metade e espere a luz de confirmação de foco acender. Há um pequeno intervalo de tempo. Este intervalo é o lag de foco.

Lag do disparador: tempo em que a máquina demora para fazer a foto depois de ter feito o foco. Depois de fazer o foco em sua máquina pressione o botão do disparador até o fim e veja quanto tempo a máquina demora para fazer o click.

Em geral o lag de foco é o grande culpado pela demora em se registrar uma cena. E é capaz de tirar a paciência de muita gente. Minha primeira digital, por exemplo, tinha uma imagem excelente para seus 3,3 megapixels. Mas junto trazia um lag tão longo que por ocasiões pensei em arremesar a máquina na parede tamanha era a minha decepção. Fotografar meu afilhado era missão para Ethan Hunt e sua equipe. As fotos que eu conseguia eram todas decididas pelo acaso e não pela minha sensibilidade de avaliar que “é agora que devo apertar o botão.”

Vendi a máquina para uma médica que, feliz, a usa até hoje para fotografar a face de pacientes. Estes, adultos, seguem a orientação dela e conseguem ficar 1,5seg imóveis. Mas meu afilhado não ficava. E aposto que seu neto também não fica.

Lags típicos

Os fabricantes, a cada geração de máquinas, diminuem um pouco o problema do lag. Mesmo assim ainda estamos longe de uma solução ideal.

A tabela a seguir mostra os lags de alguns modelos, segundo medição do Philip Askey no dpreview.com, em segundos. Vá ao site para ver a lista completa.

Máquina
Lag de foco wide angle
Lag de foco telefoto
Lag de disparador viewfinder
Lag de disparador lcd monitor
Lag total wide angle
Lag total telefoto
Canon G3/G5
0,7-0,9
1,0-2,2
<0,1
0,1
0,8-1,0
1,1-1,5
Canon S50
0,8-1,0
1,0-1,4
<0,1
0,1
1,0
1,0
Nikon Coolpix 5700
0,6
1,0
0,1
0,1
0,8
0,8
Nikon Coolpix 5400
0,9-1,2
1,0-2,0
0,1
0,1
1,0
1,4
Nikon Coolpix 3100
0,7-1,6
0,8-2,2
<0,1
0,1
0,8
1,3
Nikon Coolpix 880
0,5-1,0
1,0-1,8
0,1
0,1
1,0
1,8
Sony F-828
0,4-0,6
0,6-1,2
0,1
0,1
0,2
1,0
Sony F-717
0,6
1,1
0,1
0,1
0,6
1,1
Sony V1
0,3-0,5
0,5-1,3
<0,1
0,1
0,4
0,5

Porque o lag ocorre

O que explica a lentidão das pequeninas digitais são seus processos de auto-foco e fotometragem. Estas máquinas possuem uma capacidade restrita de processamento e demoram a calcular todas as variáveis envolvidas.

Nas máquinas de filme o foco é feito através da leitura ótica no plano do filme. Nas digitais, o processo é mais complexo. Como não há filme, o processo é diferente. Excetuando-se pequenas diferenças entre fabricantes, o que ocorre é:

  1. A imagem é projetada pela objetiva no sensor digital.

  2. O módulo de foco lê parte da informação e processa o contraste para determinar o foco (em máquinas muito sofisticadas o foco é determinado não por contraste, mas para o objetivo de nosso artigo isso é irrelevante).

  3. O motor de auto-foco é ligado.

  4. Baseado nas informações do passo 2, o motor movimenta a objetiva.

Estes passos são executados até que o objeto esteja em foco. O problema é que os passos 1 e 2 são demorados. São passos que não existem em máquinas de filme. Repeti-los diversas vezes para que o foco seja feito é o que faz das pequeninas digitais máquinas lentas.

Como diminuir o problema

Existem alguns truques que podem diminuir muito o lag.

  1. Evite usar flash. Usar flash torna o cálculo de exposição mais complexo e mais demorado. Sem o flash o lag é sempre menor.

  2. Trabalhe com pré-foco. Para fotografar uma criança inquieta no colo da mãe, faça um pré-foco (pressione o botão disparador até a metade) e aguarde a criança olhar para você. Isso fará com que sua máquina seja muito rápida.

  3. Desligue o auto-foco e trabalhe com foco manual. Isso produz resultados piores do que a alternativa 2 pois a máquina ainda precisará calcular a exposição. Mas já ajuda.

  4. Trabalhe com foco e exposição manual. Numa corrida de automóvel, por exemplo, faça o foco manualmente e coloque a máquina em modo de exposição manual (M). Defina a velocidade do obturador e a abertura da objetiva manualmente. Com isso a máquina não precisará fazer foco nem calcular a exposição, o que fará dela uma máquina muito rápida.

Tenho um amigo que é fã de máquinas Leica. As Leica são famosas por sua velocidade de operação. Não há foco automático e não há cálculo de exposição. Este grande amigo, fotógrafo, quase sempre faz o foco sem olhar o visor da máquina. Ele, quietinho, avalia mentalmente a distância que o separa do objeto a ser fotografado e, usando a escala de distâncias na objetiva, coloca ela em foco. Depois avalia a profundidade de campo que deseja usar, coloca a máquina na velocidade adequada e, quando a foto surge na sua frente, simplesmente coloca o visor na altura dos olhos, faz a composição e aperta o botão. Muito simples e rápido. As Leica M também não possuem objetivas zoom. Este amigo, por exemplo, fotografa quase sempre com uma 35mm ou uma 50mm fixa.

Mas, diante dos avanços da tecnologia, ele se apaixonou pela versatilidade do digital. Comprou uma Canon G5 e, para eliminar o lag, construiu sua Leica digital. Deixa a máquina em exposição manual, trabalha com foco manual e, da mesma forma que com a Leica, fixou a objetiva em 35mm equivalentes. Segundo ele “não é uma Leica, falta a qualidade das objetivas, mas quebra muito bem o meu galho. A máquina é bem rapidinha.”

O que esperar do futuro

Os fabricantes estão reagindo à grita geral e as máquinas melhoram a cada safra. No futuro de longo prazo (cerca de 5 anos) as pequeninas digitais devem estar com o foco tão rápido quanto uma máquina de filme. Quando isso acontecer será realmente extraordinário ter sempre à mão uma pequena digital.

SLR digitais têm lag?

Sim, certamente. Toda máquina tem lag. Mas, em função de sua construção mais sofisticada e pela CPU mais rápida, o lag das SLR digitais é muito menor do que das máquinas compactas, passando desapercebido na maioria das vezes.

Em muitas delas não é necessário ler o sensor para fazer o foco. Usa-se um esquema paralelo de prismas. Com isso a máquina comporta-se virtualmente como uma máquina de filme, apresentando lags totais na ordem de 100 a 200 milissegundos.

Conclusão

Se o tipo de fotografia que você faz ou deseja fazer com sua digital envolve crianças ou objetos em movimento, corridas, brincadeiras no parque, esportes e similares, teste a digital de um amigo antes de comprar a sua. Descubra o que é shutter lag e avalie se seus efeitos são toleráveis para você.

Para mim não foram. Depois de comprar uma digital compacta resolvi ficar com os filmes e só aderi de vez ao digital depois de comprar uma SLR. Talvez você decida pelo mesmo caminho.

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